MULHERES SANTIFICADAS
Em Outubro, mês da delicadeza e do céu azul, onde se comemora o dia das crianças e de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, vamos apresentar uma breve história da devoção de algumas mulheres e a religião. Começamos com Jacinta de São José, fundadora do Convento das Carmelitas do Rio de Janeiro.
O culto ao Carmelo nasceu na cidade de Porfíria, que hoje é conhecida como Haifa e fica nas terras tomadas por Israel. Nesta cidade os fenícios haviam erguido um altar a Baal, invocando proteção para suas viagens. O culto a esse deus profanado pela esposa do Rei Acab, Jesalém, recebeu a oposição do profeta Elias, que se estabeleceu em uma gruta, no Monte Carmelo, próximo a cidade. Inspirado pela idéia de penitência e solidão,o profeta fez de sua vida um permanente combate contra os pagãos, defendendo o monoteísmo.
Ressurgindo muitos séculos depois em plena Idade Média, o culto ao Carmelo, representou uma época de renovação da Igreja. As Cruzadas e a conquista de Jerusalém, em 1099, abrem a rota das grandes comunicações entre a Europa e o Oriente. Estamos no fim do século XII, quando a humanidade vive a experiência de grandes alterações sociais e espirituais. Igrejas e mosteiros são reedificados. Homens e mulheres procuram novos rumos de vida e afluem à Palestina, em busca dos Lugares Santos. Uns vão para o deserto, outros para as colinas, chegando ao Monte Carmelo, por volta do ano 1190.
Sabe-se que os primeiros ocidentais a se estabelecerem como eremitas no Monte Carmelo, tinham participado das Cruzadas. Viviam em cavernas, separados uns dos outros e se dedicavam a escrever longos manuscritos. Mais tarde passaram a ser chamados de Irmãos da Ordem da Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo. Nesta época, os carmelitas pediram a Santo Alberto, que em 1214 era Patriarca de Jerusalém, para fazer uma Regra, de acordo com o modo de vida que estavam levando. Esta regra religiosa propaga, desde então, a solidão, a oração, a obediência, a castidade,o jejum e a abstinência de carnes.
A partir de 1237, quando a Palestina, passa a ser ameaçada pelos sarracenos, os eremitas do Carmelo, pouco a pouco, foram voltando aos seus países de origem, fazendo com que surgisse na Europa, os primeiros conventos: Messina, HuIne, e Cambridge, todos voltados a vida soltaria e contemplativa.
Durante três séculos, a Ordem se expande com a fundação de mosteiros masculinos, até a transformação promovida em 1562, por Santa Teresa, que funda um mosteiro em Ávila (Espanha). Sob a inspiração desta Santa, começam a surgir conventos femininos, muito mais rigorosos que os masculinos. Esta renovou o espírito contemplativo na Ordem pela prática da meditação diária, do silêncio e da mortificação, restaurando-se, assim, a perfeição da vida comunitária.
Os séculos XVI e XVIII se caracterizam pela expansão da devoção mariana, das Ordens terceiras e das Confrarias do escapulário para o Novo Mundo.
Na evangelização dos imensos territórios brasileiros, a Ordem do Carmo, tomou parte muito ativa e principal. Desde 1581, já existiam Carmelitas no Brasil. O primeiro convento fundado pelos Carmelitas Descalços se localizou na cidade da Bahia, que, na época, era Capital civil e religiosa da Colônia. Foi fundado pelo Pe. Frei José do Espírito Santo, o qual, junto com mais quatro companheiros, edificaram a Igreja e Convento de Sta. Teresa, inaugurados no ano de 1692. Trinta e dois anos após a fundação, constituíram o Colégio de Filosofia para estudantes portugueses vindos ao Brasil. É neste período que acontece a história de Jacinta de São José, filha de José Rodrigues Ayres, natural do Porto, e Maria de Lemos Pereira, do Rio de Janeiro, fundadora do Convento das Carmelitas do Rio de Janeiro.
Nascida aos 15 de outubro de 1715, no dia que se festeja Santa Teresa de Jesus, Jacinta com cerca de 14, resolveu tornar-se religiosa devota de Ordem Teresa e junto com seus irmãos, mudou-se para as ruínas do Convento do Desterro, que ficava na Lapa, com o objetivo de reerguer o templo religioso. Para tal, contou com a ajuda financeira de homens poderosos da colônia, como o Conde de Bobadela, Gomes Freire de Andrade, para quem citava os pensamento de Santa Teresa de Ávila.
Em 1743, a ermida fica pronta e Jacinta com sua irmã muda-se para lá, rompendo todas as relações pessoais e familiares que tinha. Desde então o Morro do Desterro passou a ser conhecido como Morro de Santa Teresa, e finalmente, bairro de Santa Teresa.
Um ano depois sua irmã morre. Mesmo triste, viaja para Portugal com a intenção de obter de D. João V, rei de Portugal, o reconhecimento oficial de sua Ordem. Nesta época, havia poucas mulheres brancas na Colônia e por este motivo estava proibido a criação de congregações religiosas femininas. Com o seu poder de convencimento. A autorização papal só foi dada em após a morte de Jacinta, ocorrida no dia 2 de outubro de1768.
Hoje, a Igreja e o Convento de Santa Teresa, mais conhecido como Convento das Carmelitas, é considerado como patrimônio histórico e cultural do Rio de Janeiro. Apesar das reformas que passou no século XX, ainda estão presentes aspectos do projeto original, os azulejos portugueses no seu interior, alguns elementos da fachada e a torre sineira. A visitação é terminantemente proibida, e ao entrarem ali, as mulheres fazem para sempre o seu voto de união com Deus.
sexta-feira, 4 de abril de 2008
Pastorinhas
quinta-feira, 3 de abril de 2008
Um voto feminino, uma prefeita
A MULHER NA POLÍTICA
Para falar sobre a mulher precisamos resgatar um pouco da história da conquista do voto feminino.
Aconteceu na constituinte republicana de 1890 que as primeiras manifestações em favor do direito político para a mulher brasileira. Na constituinte, por iniciativa de Lopes Trovão e outros, foi apresentada emenda, concedendo direito de voto à mulher. Mas a emenda foi rejeitada. Um dos motivos para essa rejeição foi o fato de não haver um movimento feminino para acompanhar os debates.
Em 1921, a campanha pelo voto feminino começa a ganhar expressão no cenário político brasileiro. Berta Lutz, em entrevista ao jornal Imparcial fala sobre a apresentação de uma emenda, de autoria dos deputados Bittencourt Filho e Nogueira Filho, sobre o sufrágio feminino. Berta Lutz cita exemplos de outros países como Rússia (depois da revolução socialista de 1917), onde as mulheres figuravam na constituição e tinham plena igualdade com os homens; na Finlândia, um dos primeiros países a estabelecer o voto feminino sem restrições; Suécia, desde 1862; Noruega em 1913; Dinamarca, 1915, além da Holanda, Letônia, Grécia, Áustria, Polônia, Inglaterra, EUA, e México.
As mulheres brasileiras se organizaram na aliança Internacional de Mulheres.
Berta Lutz foi delegada oficial do Brasil na Conferência de Mulheres, realizada em Baltimore (EUA), em 1922. Ao regressar, transforma a Liga para Emancipação Feminina, fundada em 1919, na Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Durante mais de uma década as mulheres brasileiras realizaram a campanha pelo voto feminino. Algumas, de mentalidade mais avançada, agruparam-se no Partido Republicano Feminino, fundado por Leonilda Daltro, em 1910; no Partido Liberal Feminino; na aliança Nacional de Mulheres; na Legião da Mulher Brasileira; na Junta Feminil pró-Hermes/Venceslau, que foi a primeira agremiação a colaborar com as eleições presidenciais.
Em outubro de 1922 o Congresso Jurídico Brasileiro aprovou, por grande maioria a constitucionalidade e a oportunidade do voto Feminino. Em 1926 o jornal Folha da Noite, noticiava que no Congresso de Minas Gerais se discutia um projeto de reforma da Constituição do estado, visando aprovar uma Emenda concedendo às mulheres o direito de votarem e serem votadas nas eleições estaduais. Na mesma época, Juvenal Lamartine defendia na Plataforma de Governo, no Rio Grande do Norte, o voto feminino. Foi eleito e deu início ao seu programa administrativo. O art. 77 das Disposições Gerais da Lei Eleitoral, daquele estado, consagrava a conquista feminina.
A primeira mulher a ocupar um cargo eletivo, na América do Sul em 1929, foi a prefeita do município de Lages, Alzira Soriano. Ao seu lado várias outras mulheres foram eleitas e empossadas.
Em 1945, Alzira Soriano elegeu-se vereadora e até 1958 liderava a bancada da UDN. Mas só em 1932 é que a mulher brasileira conquistou, definitivamente, o direito de voto, no Brasil. Carlota Pereira Queiroz, médica, tornou-se a primeira representante feminina no Congresso Nacional. Berta Lutz foi a Segunda mulher a ocupar uma cadeira na Câmara Federal. Em 1950, Ivete Vargas, com 22 anos de idade, foi eleita deputada Federal pelo PTB. Reelegeu-se em 54, 58, 62 e 66. Foi cassada pelo Regime Militar e com a anistia elegeu-se novamente Deputada em 1982.
Nancy Novaes, Nita Costa, Nisia Carone, Maria Lúcia Araújo, Lígia Doutel de Andrade e Júlia Steibruch foram deputadas federais na década de 60. Na década de 70, as mulheres voltaram ao poder. Em 78 elegeu-se pela primeira vez, suplente ao senado, pelo estado do Amazonas, Eunice Michelis, que assumiu em 80, com a morte do titular. Em 78 foram eleitas quatro deputadas federais. Na década de 80 o MDB foi o partido que mais elegeu mulheres para a Câmara Federal e Assembléias Estaduais, 3 federais e 16 estaduais.
Representada por 26 mulheres a Assembléia Nacional Constituinte recebeu propostas de grande importância para a Carta Magna. Em 1994, 869 mulheres se candidataram a cargos eletivos no país. Neste ano foram eleitas 82 deputadas estaduais, 32 deputadas federais e 3 senadoras. Benedita da Silva, do PT, é a primeira negra na História do Senado Brasileiro. Em 98 a bancada feminina Federal diminuiu, mas cresceu nas Assembléias Estaduais. Com algumas suplentes assumindo, a Câmara Federal conta atualmente com 30 deputadas e o Senado com 6 senadoras.
Apesar de reduzida essa representação é expressiva se comparada com os outros poderes: executivo e judiciário.
Tema antigo e apaixonante, a participação da mulher na sociedade e na vida política, novamente se impõe na pauta das prioridades nacionais no momento em que o País prepara-se para ingressar num processo de eleições gerais. A influência da mulher no processo decisório ocorre desde a geração e a criação dos filhos até sua participação em funções de responsabilidade empresarial ou pública.
A legislação eleitoral em vigor determina que cada partido ou coligação deve reservar o mínimo de 30% e o máximo de 70% para o registro de candidaturas de cada sexo. Em outras palavras, isto quer dizer que, pelo menos, 30% das vagas disponíveis sejam atribuídas às mulheres. Exemplo positivo desse avanço social deu-se na Inglaterra, onde a lei de quotas funcionou graças ao apoio decisivo do Partido Trabalhista. A dúvida que persiste é se o mesmo vai acontecer no Brasil. Haverá candidatas em quantidade suficiente com possibilidades de saírem vitoriosas do embate eleitoral? Caso a lei venha a gerar resultados concretos, teremos um novo Congresso com maior representação feminina e, em conseqüência, frutos benéficos para a instituição e para a sociedade.
A luta pela emancipação feminina é longa, mas tem um marco definitivo em 1791 quando Olympes de Gouges publicou a famosa "Declaração de Direitos da Mulher e da Cidadã", libelo em defesa da concessão da igualdade de direitos políticos às mulheres, proibidas de participar da Assembléia dos Representantes da França. Desde então, a conquista de direitos por parte da mulher tornou-se cada vez mais intensa.
Foi no Estado norte-americano do Wyoming, em 1869, que pela primeira vez as mulheres adquiriram o direito de voto. A emancipação política feminina logo surgiu também na Austrália e Nova Zelândia. Em 1919, lady Astor tornou-se a primeira mulher a eleger-se para a Câmara dos Comuns, na Inglaterra, onde permaneceu por 25 anos. A eleição de 1997 constituiu extraordinária oportunidade para a participação política das mulheres, das quais 120 chegaram à Câmara Baixa, realidade que se tornou possível pela disposição dos líderes trabalhistas em oxigenar não apenas o partido, mas a própria atividade política inglesa.
Nos Estados Unidos, Hattie Caraway foi a primeira mulher a chegar ao Senado pelo voto (1931-1945). Antes dela, Rebecca Felton havia sido nomeada para ocupar uma cadeira por um único dia, em 1922. Hoje o Senado americano conta com nove mulheres (9%), enquanto a Câmara possui 53 representantes do sexo feminino (12,2%). Já na França, a participação política feminina não tem sido expressiva. A média de representação na Assembléia Nacional corresponde a 6% do total, colocando-se o país em último lugar na Europa e em 72% no mundo. No Senado, a situação é ainda pior: apenas 5,6% do total dos componentes pertencem ao sexo feminino. Contudo, desde a presidência de François Miterrand e agora sob o governo Jospin, a mulher alcançou notável presença no Executivo gaulês.
A história recente guarda o nome de insignes personalidades do universo feminino, tais como Evita Perón, Golda Meir, Margaret Thatcher e Madeleine Albright, secretária de Estado que conduziu com sucesso a política externa norte-americana no governo Clinton. A esta relação é forçoso acrescer os nomes de Indira Ghandi, Benazir Butto, Gro Brundtland e Violeta Chamorro, apenas para citar algumas mulheres que exerceram relevantes funções político-administrativas em seus países.
No Brasil, sempre se impõe a lembrança das pioneiras na luta pelos direitos da mulher, como Maria Quitéria, que participou disfarçada de homem das guerras da Independência. Anita Garibaldi, a princesa Isabel, as mulheres do Tijucopapo e da Revolução Constitucionalista de 1932, contribuíram também para a feitura de alguns dos mais emocionantes episódios de nossa trajetória. A trilha aberta por Alzira Soriano de Souza, primeira prefeita eleita na América do Sul, no município de Lages (RN), em 1929, foi percorrida com acentuado descortino por mulheres ilustres que souberam honrar com seu esforço humanístico os postos que ocuparam e ocupam ainda hoje.
Em todos os quadrantes multiplicam-se os exemplos da capacidade feminina para o exercício da função pública, reconhecida a sua facilidade para a coordenação do pensamento estratégico, do planejamento e da ação. Poucos duvidam de que este século será demarcado pelo poder feminino, que já partilha em igualdade de condições com os homens, o delineamento do futuro de seus semelhantes.